
A dona de casa Marion Terra, mãe do adolescente Lucas Terra, comemorou a decisão da Justiça da Bahia que manteve a condenação dos pastores Joel Miranda e Fernando Aparecido da Silva pela morte do filho. Apesar disso, ela afirmou que a família vai pedir a prisão imediata dos condenados.
“Esses anos foram como uma punição, uma condenação. Era como se eu tivesse sido condenada. Eu sempre pedia para Deus para que não desistisse desse caso, que me desse força”, relatou.
Segundo Marion, o longo tempo de espera dificultou até mesmo o processo de luto.
“Sou uma mãe que perdeu um filho e não conseguia fechar o luto. Vinte e cinco anos. Foi como um massacre para mim, como se eu tivesse sido condenada”, desabafou.
A decisão que manteve a condenação foi tomada de forma unânime por três desembargadores durante uma sessão realizada na quinta-feira (5/3), em Salvador.
Crime aconteceu em 2001
O caso aconteceu em março de 2001. Na época, Lucas Terra tinha 14 anos quando foi estuprado, queimado vivo e teve o corpo abandonado em um terreno baldio da capital baiana.
A condenação dos pastores só ocorreu 22 anos depois, durante um júri realizado em abril de 2023.
Os dois foram condenados a 21 anos de prisão em regime fechado. No entanto, permaneciam em liberdade enquanto aguardavam o julgamento de recursos apresentados pela defesa.
Apesar de ainda existir prazo para novos recursos, a legislação permite que seja solicitada a execução da pena após a decisão desta semana. A família informou que pretende formalizar o pedido para que os condenados sejam presos.
Para Marion Terra, a demora no andamento do processo trouxe sofrimento adicional à família.
“Foi um processo muito longo por causa do poder econômico da instituição que eles fazem parte. Até hoje toda a equipe de advogados que os defende é sustentada pela instituição”, afirmou.
Ela também criticou o tratamento recebido ao longo dos anos.
“Parecia que nós, pais do Lucas Terra, éramos os bandidos e eles as vítimas, porque foram protegidos pelo Estado. Os assassinos mataram meu filho uma vez, mas o Estado nos matou inúmeras vezes com cada recurso e agravo”, disse.
Em nota, a defesa dos pastores informou que continua convicta da inocência dos réus e que irá recorrer da decisão.
Relembre o júri
O julgamento dos pastores aconteceu em duas sessões, realizadas nos dias 25 e 27 de abril de 2023. A sentença foi anunciada pela juíza Andréia Sarmento por volta das 21h30 do segundo dia.
A pena inicial foi fixada em 18 anos de prisão, mas aumentou para 21 anos após a aplicação de três agravantes: motivo torpe, uso de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.
Durante o julgamento, testemunhas de acusação e defesa foram ouvidas. Entre elas estava a mãe de Lucas Terra, que se emocionou bastante ao prestar depoimento no primeiro dia do júri.
Testemunhas relataram que o adolescente foi visto na noite do desaparecimento na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no bairro Santa Cruz, em Salvador.
Outros depoimentos também indicaram contradições entre as declarações de testemunhas da defesa e informações presentes no processo.
No segundo dia do julgamento, as esposas dos dois pastores prestaram depoimento a favor dos réus, assim como um bispo e dois pastores da igreja, que relataram a rotina dos acusados na época do desaparecimento de Lucas Terra.
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